Bem que São Domingos Sávio avisou: a santidade consiste em estar sempre alegre. Oras, se é melhor ser alegre que ser triste por que a literatura teima em povoar nossas vidas com tanta desgraceira, não é mesmo? Mas isso está acabando. E tive a prova desta tendência neste ano que quase termina, quando li, reli e tresli duas obras de nossa prolífica literatura tupiniquim que chegaram às minhas mãos.

O primeiro foi Malvadeza Durão, do pernambucano Hélio Jorge Cordeiro. O segundo é Agora Deus vai te pegar lá fora, do gaúcho Carlos Moraes. Os dois, separados por milhares de léguas terrestres – para ficar mais poético – mas unidos pela boa escrita e pelo ótimo humor.

Cordeiro conta a história acidental de um justiceiro atrapalhado que assombrou o Rio de Janeiro em meados do século XX. Moraes narra, naquele tom meio-auto-biográfico-meio-confessional-envergonhado as peripécias de um padre preso no interior do Rio Grande do Sul, em plena Ditadura Civil-Militar.

Combinando a riqueza de detalhes com personagens e causos insólitos, os dois vão criando um fio de narrativa viciante, que pulsa e convida o leitor a sempre virar a página sem fechar o livro.

E aí vem o mais divertido, além das estórias serem repletas de sutilezas, bem contadas e de leitura prazerosa, o ingrediente bom humor faz com que o leitor dê boas risadas ao desenrolar da trama. Assim como Luis Fernando Veríssimo e Jô Soares, Cordeiro e Moraes recuperam o papel do livro como entretenimento indispensável para uma vida psicologicamente sã, saindo daquela sisudez tão apreciada por alguns (mau)elementos de nossa intelectualidade.

Sim, porque em tempos de tantos melindres sentimentais coletivos, é preciso que alguém faça a defesa de um mundo de delícias e graça, sob a pena de virarmos todos uns chatos amargurados vivendo deslocados em um país que, ao que parece, finalmente deu certo. É preciso defender o riso ao choro, a piada ao drama social. Quem diz que não se faz crítica dando risada?

O time dos escritores alegres e de bem com a vida vem aí, está aumentando a cada dia e logo dominará o campinho. E aos mais rebuscados e taciturnos, aquele pessoal das metonímias e das paronomásias, que fique a paráfrase ao outro Moraes, o Vinícius: que me desculpem os críticos, mas a alegria é fundamental!

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