Desde que o mundo é mundo, os vales são vales e as cordilheiras se colocam firmes sobre nossos horizontes os homens olham para as montanhas com um certo grau de estranhamento e desejo. Talvez a psicanálise explique essa vontade de chegar ao topo e de lá vislumbrar a criação.

Mas, convenhamos, as montanhas não foram feitas para serem subidas pelos homens. Assim, sem nenhum artifício ou equipamento propulsor. O homem sabe disso. Desde os tempos remotos subia os morros com burricos de carga, depois vieram os ascensores, carros e motocicletas. Ou a via aérea, com teleféricos e bondinhos.

Entretanto o homem é teimoso. Quer enfrentar a montanha. Quer subir com as próprias forças. Não aceita subir tranquilamente e quer desafiar a montanha a pé ou, como foi no meu caso, de bicicleta.

Erros acontecem. É melhor admitir. Enfrentei a montanha mais alta do Rio Grande do Sul e cheguei lá. Suei, gemi, fiz lá as minhas caretas sobre as duas rodas. Levei mais tempo que esperava. Comi poeira e maltratei o corpo. Mas fui até o fim.

Uma subida íngreme ajuda você a refletir. Duas a rever suas verdades. Três a profetizar. Você passa a admirar os alpinistas tiroleses e figuras como Moisés e Zaratustra, que subiram suas montanhas e desceram com dignidade para contar suas histórias.

Fiz uma bela subida de montanha de bicicleta. Bela e sofrida o suficiente para aprender que montanhas não foram feitas para serem transpostas desta maneira. Meu respeito aos ciclistas aventureiros, ao pessoal da camisa branca com bolas vermelhas do Tour de France. Mas daqui pra frente,comigo, só se pedala em linha reta e a passeio.

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