Sou de um tempo em que viajar para o exterior era o supra sumo do status, estudar fora a principal ambição e fazer um cruzeiro um sonho inimaginável. Quando alguém ia para a Europa era motivo de comentários durante dois verões e os cartões postais oriundos dos destinos eram disputadíssimos. Era aquela época em que todo menino sonhava em ir fazer intercâmbio nos Estados Unidos, para comer hambúrguer, assistir MTV e ter um armário metálico no corredor da escola.

Venho, como muitos brasileiros, de uma família de imigrantes. E talvez essa vontade de sair por aí conhecendo o planeta esteja mesmo introjetada na corrente sanguínea de diversos de nós. O fato é que a geração de nossos pais não chegou a usufruir dessa cultura andarilha, mas a nossa geração e a nova classe média talvez façam das viagens o mais novo símbolo de seu desabrochar. O espírito de seu tempo.

Essa retomada caminhante do povo brasileiro tem se intensificado nos últimos anos e recentemente estamos viajando mais que japonês. Para mim já virou rotina: chego em casa no fim do dia, sento em frente ao computador para dar uma atualizada nas informações e relaxar um pouco, quando começam a saltar diante de mim fotos de meus amigos pelo mundo afora. Zequinha portentoso no Champ de Mars, um tio em um cruzeiro pelas Ilhas Baleares, minhas primas em frente à Casa Branca.

Miami, Paris, Nova Iorque, Milão. Sem medo das fronteiras os brasileiros desfilam todo seu gingado e alegria nos mais variados destinos internacionais. Não bastasse o bom momento econômico, o governo ainda dá um empurrãozinho com dezenas de milhares de bolsas de estudo lá fora. Só não viaja quem não quer.

E se por um lado isso será bom para o mundo, pois disseminaremos patrimônios tipicamente brasileiros como a tapioca, o samba, a coxinha, a caipirinha e a feijoada, por outro lado as viagens também trarão à cultura brasileira uma riqueza sem par. Viajar sempre é uma janela para o futuro.

Também não há como pensar o Brasil indiferente diante de todas essas experiências, testemunhos e visões de mundo que serão produto dessas viagens. Os passaportes carimbados nos tornarão mais criativos, inovadores e ousados. Deixaremos de lado essa desgraçada síndrome de vira lata. Parece pouco, mas depois que essa moçada retornar, cheia de ideias, o Brasil deve experimentar um novo momento, talvez o mais rico e produtivo de sua história.

Viajar é muito bom e precisa deixar de ser tratado, pelo menos por nós brasileiros, como algo supérfluo ou ligado à ostentação. Como diria Carl Sagan, “em algum lugar existe algo incrível esperando para ser descoberto.” Vamos viver este bom momento e descobrir nossa essência andarilha. Boa viagem, Brasil!

 

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