Quando o apito inicial soou na tarde de hoje no Mineirão, a linha do meio de campo separava mais do que duas seleções. Dividia dois sentimentos distintos: de um lado a paixão pelo futebol e de outro a valentia de lutar até o fim. De um lado a camisa roja, guardiã da bravura do cacique Lautaro, guerreiro Mapuche, da fibra de mulheres como Inês Suárez e Michele Bachelet. De outro a paixão pelas diabruras de Mané Garrincha, pelo futebol inigualável de Pelé e pela emoção única de vestir a camisa canarinho.

Porém nem a paixão tampouco a valentia ganha um jogo. Um jogo se ganha com a bola no pé, com iniciativa, vontade de ver a bola entrar. O Brasil começou bem, até que após o gol chileno, ainda no primeiro tempo, a seleção do Pacífico tomou conta do jogo. 

Mas o Chile não trouxe a partida para si para fazer jogadas criativas, atacar e definir. Dominou o jogo para sangrá-lo, para um Minerazzo, para deixar que a paixão e a valentia fossem aos poucos sendo dominadas por um inimigo ainda maior: o cansaço. Cansaço físico, cansaço emocional e cansaço tático. Ao Chile coube o físico, ao Brasil o tático. Aos brasileiros o emocional. Talvez não exista desânimo pior para um torcedor do que ver duas seleções apáticas, aparentando até mesmo um certo medo. Contando os segundos para o término da partida e o começo do calvário da prorrogação. Perdendo jogadores consecutivamente para as quartas-de-final, para as quais, ainda que completas, nenhuma das duas seleções inspiraria excesso de apostas nas casas especializadas da Inglaterra.

Com a prorrogação o Brasil até pareceu respirar melhor, enquanto o Chile continuava tentando matar o jogo por inanição, própria e alheia. E assim foi o resto do tempo, na contramão da Copa, da alta média de gols, do jogo aberto, do futebol bonito e vistoso. E de cansaço em cansaço, no antijogo chileno e na falta de criatividade brasileira, ele próprio – o cansaço – foi suplantado pelo tempo que, contando os ponteiros de seu relógio, foi aos poucos ganhando espaço na física futebolística.

Nas penalidades finais erros nos dois lados. Mas o Brasil errou menos e o Chile mostrou que não soube achar o caminho do gol, nem na partida, nem nos pênaltis. A seleção canarinho perdeu a partida tática e emocionalmente, mas ganhou a classificação. Continua devendo um jogo mais claro e convincente, mas talvez o choque na partida contra o Chile seja o ponto de virada para os brasileiros. Minerazzo, ao menos dessa vez, não houve. Mas os cansaços foram insuportáveis.

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