Toda vez que um time muito forte entra em campo contra um time muito fraco há uma mistura de sentimentos no coração do bom torcedor. Uma parte do músculo quer ver um bom espetáculo, o futebol bem jogado, quer ver o time mais forte seguir e prosperar na competição. Outra parte coronária torce pelo time mais fraco, o famoso “cachorro magro”, no linguajar dos campos. Não é bem torcer simplesmente contra o time mais forte. É torcer pelo inusitado, pela surpresa, pelo extraordinário que é ver um time desacreditado vencer uma partida praticamente impossível.

Alemanha e Argélia foi um desses jogos. As duas seleções foram extremamente bem recebidas no Brasil e logo se adaptaram com a torcida e as condições atmosféricas tupiniquins. Os alemães de pronto se entrosaram no clima tropical do sul da Bahia, cantaram hinos de clubes locais, usaram cocares e outras indumentárias indígenas brasileiras e pareciam até que jogavam em casa. Os argelinos foram um espetáculo à parte de simpatia. Tomaram as ruas das cidades brasileiras por ondem passaram e deixaram Curitiba com uma cantoria em agradecimento à cidade que emocionou a todos.

Na chave de grupos a Alemanha pegou grandes seleções e teve um desempenho irregular. Goleou Portugal, empatou com Gana e ganhou por pouco daquele futebol estranho jogado pelos americanos. Já a Argélia teve um retrospecto esquizofrênico. Começou perdendo para a Bélgica por dois a um. Depois goleou a Coreia do Sul e terminou empatando com a Rússia. A Alemanha apresentou um futebol tecnicamente robusto, a Argélia um futebol cheio de vontade e força.

Em tese o bom fã de futebol gostaria de ver a Alemanha seguir em frente. Pelo bem da Copa. Pelos grandes jogos e clássicos que podem surgir dos cruzamentos. Mas dava uma coceirinha para torcer pela Argélia, o Ramadã Mecânico, como ficou conhecido o selecionado. Era a difícil escolha entre um Davi e um Golias às avessas.

Em campo o jogo das oitavas de final foi cruel. Arrastou os times para a prorrogação com o placar ainda inalterado. Antes das penalidades a Alemanha conseguiu fazer dois gols. A Argélia respondeu fazendo o seu. Mas não havia mais tempo para um gol redentor. Deu Alemanha. Metade do coração sorriu, a outra metade chorou. Coisas do futebol.

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