Eu ainda era muito criança em 1982, quando a Itália venceu aquela seleção brasileira aclamada por décadas seguintes. Somente quando já estava na faculdade fui assistir o videotape da partida para entender melhor porque deveria, entre outras coisas, venerar tanto um selecionado e odiar tanto Paolo Rossi. Neste intervalo, como meus quatro anos de 1982 não permitiam outras lembranças, minhas memórias sobre a Copa da Espanha são poucos flashes reprisados à exaustão pela TV brasileira em cada e todo especial sobre a Tragédia de Sarrià.

Dentre eles o mais emblemático é a comemoração de Paulo Roberto Falcão, após converter o segundo gol brasileiro e empatar a partida com os italianos. Falcão faz um gol de fora da área, fica alucinado, corre para a lateral em direção do banco de reservas. Os punhos cerrados com os braços abertos. A boca escancarada deixa sair um grito que não é de libertação e nem de alívio, mas de uma mistura desses dois sentimentos, uma palavra ainda não criada em nenhuma língua ou dialeto. A câmera demora para ajustar o close, Falcão parece que vai engolir a filmadora, ou vice-versa. Em um momento parece que vai te abraçar. Ele corre e dá uns estranhos pulos daquele tipo de alegria que não sabe se corre, se grita, se pula, se chora. E é abraçado pelos reservas brasileiros. Corta.

Nenhuma outra imagem me lembra tanto a Copa de 1982. Nenhuma comemoração me é tão cara, me parece tão bonita, com tanta garra e catarse. Pra mim Falcão é aquilo, não um técnico estranho, um apresentador de TV comedido. Aquilo eternizou Falcão para mim e por anos lamentei não estar em idade consciente de testemunhar aquele momento quando ele aconteceu. Por não poder gritar e pular junto. Abrir os braços e sair correndo. É como ver Garrincha jogar. É um patrimônio que ninguém te rouba, ninguém te tira. É esquisito lamentar não poder lamentar aquela derrota. Mas durante muito tempo lamentei por aquela comemoração que forjou as alegrias e tristezas de uma geração de torcedores brasileiros. A comemoração que não vi.

Até que vi David Luiz.

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