A psicanálise nos diz que a depressão é também fruto de um sentimento de egoísmo que só pode ser superada com o exercício da generosidade. Foi pensando nisso que bati o olho na última linha e concluí a leitura de Na Outra Margem (Edição do Autor, 2011, 317 pág.), do escritor e fotógrafo belga Philippe Debled.

Radicado em Florianópolis há mais de uma década, Debled conta sua história, uma verdadeira odisseia, escrita paralelamente sobre dois caminhos: a viagem da Bélgica ao oriente e – na sequência – ao Brasil e a bad trip pelo mundo das drogas lícitas e nem-tão-lícitas experimentadas ao longo deste percurso, que durou anos.

Como o autor mesmo diz, ele é belga. Belgas bebem. Debled faz, capítulo após capítulo, um verdadeiro catálogo das bebidas e drogas disponíveis no mercado e seus efeitos. Fala também das sucessivas tentativas de recuperação até chegar à derradeira e definitiva. Mas o livro não é só um manual de autoajuda para toxicômanos. Tem muita viagem ali, no sentido geográfico, mesmo. Debled foi um dos primeiros fotógrafos a entrar no Vietnã após a abertura na década de noventa. Encontrou a paz no Himalaia, a diversão em Bangkok, o amor em Bali. Conheceu praias lindíssimas antes de serem desbravadas pelo ocidente. Praias que talvez não mais existam, ao menos da forma como eram, intocadas e virgens.

Com seu olhar curioso e apaixonado pela estrada e pelas paisagens, Debled escreve um livro leve e sensível, parecendo falar aos amigos de alguma recente viagem de férias. Como entretenimento é um excelente livro para se saborear guarnecido de sites de mapas e viagens, para se ter, minimamente, a sensação de viajar junto. Quem tiver um olhar mais profundo, verá os vazios existenciais, os ciclos de insatisfação e de desejo, sempre tão presentes em nossas vidas, alcoolizadas ou não. Verá uma incessante busca pela liberdade e pela própria libertação.

Na Outra Margem é um presente aos leitores que buscam um road literature repleto de destinos exóticos, dicas imperdíveis e abordagens engraçadas. Mas é também um testemunho muito pessoal da superação das drogas e a prova de que, em muitos casos, escrever é um gigantesco ato de comunhão. É a generosidade que liberta. Um presente para si e para os outros.

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