Deleite

Eu. Tua nutriz. Me faço mulher. Me fazes mãe. Me faço líquida. Teu leite. Teu alimento. Meu deleite de todas as horas. Dos minutos que sou só tua. De teus momentos de choro e riso. Deleite de todos os teus olhares. Em manhãs. Tardes. Noites e madrugadas. Na profundidade de nossa natureza. Esse jardim íntimo de sussurros e gestos. Nosso paraíso particular habitado por pequeninos segredos. Tão nossos como tuas delicadas mãos pousadas sobre meu peito. Te embalo. Te acalento. Tomas o que é teu. Meu amor. Teu alimento. Eu.

Há uma noiva no Porto

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Roteiristas que migram para a literatura carregam consigo os bons cacoetes da sétima arte. Conduzem a história desfazendo o fio da narrativa e quando você percebe o livro vai se corporificando à sua frente, como se fosse um filme, com a construção das personagens e o ritmo das grandes telas.

O cinema já cedeu grandes roteiristas à literatura e um dos mais novos nomes que aparecem no mercado editorial brasileiro é do pernambucano Hélio Jorge Cordeiro, que acaba de lançar em terras tupiniquins seu quarto livro, A Noiva do Porto (Chiado Editora, Lisboa, 152 pág.), previamente lançado em Portugal.

Em uma trama que chega a lembrar de Almodóvar, a obra de Cordeiro é repleta de referências, intencionais ou não. De uma página salta algum paralelo ao escritor argentino Jorge Luís Borges, acolá uma cena que lembra o final folhetinesco de uma novela dos anos oitenta, os antagonistas se edificam como vilões de clássicos de Hollywood, e por aí toca a banda. Como nos filmes, flashbacks e inserts dão o tempero à narrativa. Tudo isso flanando pelas ruas e paisagens da cidade do Porto, da qual o livro é mezzo guia turístico, mezzo declaração de amor.

A Noiva do Porto conta a história de Elis, uma jovem portuense – ou tripeira, como se diz além-mar – cujo sonho de se tornar noiva por um dia vai se desenrolando ao passar das noites e dos capítulos. Muito distante da onda wedding que o país experimenta atualmente, o livro de Cordeiro poderia até ser considerado um thriller policial repleto de idiossincrasias, dramas psicológicos e salpicado pelas dificuldades inerentes às jornadas em busca de um ideal.

Com um final surpreendente e um desfecho que faz com que o leitor una todas as pontas ainda abertas da narrativa, tal qual no cinema, A Noiva do Porto é uma obra vibrante, que coloca Hélio Jorge Cordeiro um degrau acima em relação a seus outros livros.

A lenda do Ribeirão da Caetana

[trecho de uma carta depositada no Arquivo Público Municipal, sob número 47-B/1913]

“Dizem os mais velhos que nos idos de 1880 restavam poucos índios botocudos nos sertões de Itajaí. Dentre eles um jovem chamado Jomoré que, já em idade de ser guerreiro, começou a se aventurar para fora dos limites seguros nas cercanias de sua tribo. Caçava pequenas cutias, capivaras e aves, além de pescar o que o rio oferecia e coletar frutos e tubérculos que brotavam da terra.

Foi quando perseguia uma caça que o jovem índio, já afastado demais da aldeia, chegou a uma pequena fonte escondida nos pés da morraria da cidade, onde parou para saciar sua sede. Ali, naquela tarde fresca de final de inverno, ele conheceu Clara, a moça branca de olhos cinzentos que buscava água na fontezinha afastada. Os dois se apaixonaram assim que um olhar pousou sobre o outro.

Daquele dia em diante, todas as tardes, eles se reuniam escondidos, sob a sombra de um majestoso guarapuvu que havia debruçado sobre o curso d’água. Sabiam, entretanto, que aquele amor não seria aceito, nem pelos colonos portugueses, tampouco pelos índios. Eram tempos difíceis, mas os jovens pareciam estar cegos para os perigos e conseqüências daquele ato sentimental.

Como que por um encanto ou maldição, no mês que se seguiu a esses encontros uma forte seca irrompeu sobre a roça dos índios, dizimando a plantação e espalhando a fome na aldeia. Os rituais de expiação foram iniciados pelo pajé quando, Tupã, o Deus-índio, decretou de maneira tenaz sua sentença: o motivo do flagelo era o amor dos dois jovens. O romance deveria terminar sob pena de a tribo definhar, assim como a terra, as plantas e tudo o mais ao redor.

Jomoré foi avisado, mas tendo por nutriz a ânsia desmedida típica dos primeiros amores, desobedeceu ao pajé e foi encontrar Clara, que já o esperava à sombra do guarapuvu. Aturdidos pela sentença mordaz, nem cogitaram a separação. Resolveram que melhor seria viver fugindo pelo continente, como os progenitores primordiais quando da expulsão do Éden. Escapando da ira de Tupã, cobertos de folhas, se esgueirando por entre a vegetação densa e intocada, os dois amantes seguiam disfarçados pelas sombras na mata. Porém, durante a travessia de um riacho em um descampado, o Deus-índio os encontrou e marcou ali a separação eterna dos amantes. Como castigo, Clara foi transformada por Tupã em uma nuvem, cinzenta como seus olhos. De Jomoré se fez uma serpente de fogo, para que jamais chegasse perto do céu e até mesmo evitasse as águas da chuva, vivendo a rastejar pela floresta.

Com o coração inundado de tristeza, Clara chorou uma noite inteira, fazendo descer das serras da cidade águas nunca vistas. Jomoré, agora cobra de fogo, na fuga das lágrimas de sua amada entocou-se no chão, rasgando a terra em fúria e desespero. Atravessou os subterrâneos da cidade até chegar ao rio, nas proximidades de um barracão onde vivia uma negra, de nome Caetana. Ali Jomoré encontrou as águas derradeiras e a morte, repousando seu corpo para todo o sempre nas profundezas imemoriais do rio Itajaí.

Na manhã seguinte, a negra Caetana acordou atônita diante de um novo ribeirão que havia surgido após a tempestade. O riozinho, cortando os pastos como uma artéria pulsante, era fruto da fúria de Jomoré e das lágrimas de Clara. Nascia assim o ribeirão da Caetana, como foi logo batizado pelo vilarejo.

Sobre Clara, nuvem escura, nada mais se soube. Mas dizem os antigos que ela ressurge, de quando em quando, a chorar suas lágrimas por sobre a cidade, eterna maldição de inúmeras enchentes que se precipitam sobre Itajaí”.

Sobre viagens sensoriais e territoriais

A psicanálise nos diz que a depressão é também fruto de um sentimento de egoísmo que só pode ser superada com o exercício da generosidade. Foi pensando nisso que bati o olho na última linha e concluí a leitura de Na Outra Margem (Edição do Autor, 2011, 317 pág.), do escritor e fotógrafo belga Philippe Debled.

Radicado em Florianópolis há mais de uma década, Debled conta sua história, uma verdadeira odisseia, escrita paralelamente sobre dois caminhos: a viagem da Bélgica ao oriente e – na sequência – ao Brasil e a bad trip pelo mundo das drogas lícitas e nem-tão-lícitas experimentadas ao longo deste percurso, que durou anos.

Como o autor mesmo diz, ele é belga. Belgas bebem. Debled faz, capítulo após capítulo, um verdadeiro catálogo das bebidas e drogas disponíveis no mercado e seus efeitos. Fala também das sucessivas tentativas de recuperação até chegar à derradeira e definitiva. Mas o livro não é só um manual de autoajuda para toxicômanos. Tem muita viagem ali, no sentido geográfico, mesmo. Debled foi um dos primeiros fotógrafos a entrar no Vietnã após a abertura na década de noventa. Encontrou a paz no Himalaia, a diversão em Bangkok, o amor em Bali. Conheceu praias lindíssimas antes de serem desbravadas pelo ocidente. Praias que talvez não mais existam, ao menos da forma como eram, intocadas e virgens.

Com seu olhar curioso e apaixonado pela estrada e pelas paisagens, Debled escreve um livro leve e sensível, parecendo falar aos amigos de alguma recente viagem de férias. Como entretenimento é um excelente livro para se saborear guarnecido de sites de mapas e viagens, para se ter, minimamente, a sensação de viajar junto. Quem tiver um olhar mais profundo, verá os vazios existenciais, os ciclos de insatisfação e de desejo, sempre tão presentes em nossas vidas, alcoolizadas ou não. Verá uma incessante busca pela liberdade e pela própria libertação.

Na Outra Margem é um presente aos leitores que buscam um road literature repleto de destinos exóticos, dicas imperdíveis e abordagens engraçadas. Mas é também um testemunho muito pessoal da superação das drogas e a prova de que, em muitos casos, escrever é um gigantesco ato de comunhão. É a generosidade que liberta. Um presente para si e para os outros.

Crônicas da Copa – Porque vou torcer para a Alemanha

Alemanha e Argentina farão no domingo a tão sonhada final da Copa do Mundo de 2014. Dois selecionados distintos, de escolas e estilos de jogo muito diferentes. A Alemanha chega como franca favorita e torcerei pelos germânicos por dois motivos: porque gosto de futebol e porque os argentinos não merecem ganhar com esse futebol que apresentam.

A Argentina fez uma campanha sem graça. Ganhou no aperto em todos os jogos, com gols salvadores e circunstanciais no final. Fez apresentações apáticas, sem encanto, sem nenhuma novidade tática. Ganhou por detalhes e nem Messi brilhou o quanto se esperava. Já a Alemanha aplicou duas grandes goleadas sobre Portugal e Brasil. Apresentou um jogo em bloco muito bem estruturado e difícil de ser batido. Sofreu com alguns adversários por serem retranqueiros e fechados, mas quando o jogo era franco e aberto a Alemanha sobrou. Quem gosta de futebol é só comparar os dois jogos de semifinais e decidir o que gostaria de assistir pelo resto da vida: a Alemanha de ontem ou a Argentina de hoje.

Já no quesito merecimento a seleção platina chegou à final no melhor estilo Parreirista (assim como o Brasil de 1994, que ganhou nos pênaltis depois de uma campanha insossa e duvidosa). Os Argentinos ganharam todos os jogos com diferença de apenas um gol, sendo que três deles foram por um a zero. O empate em zero a zero com os Países Baixos foi tedioso, com o incrível número de três chutes a gol nos 90 minutos. Mas tudo bem, gol nunca foi o forte da Argentina, um time de retranqueiros clássicos. Para efeitos de comparação, no total das copas, o Brasil fez 221 gols. A Alemanha colocou a bola nas redes 223 vezes. Os argentinos converteram em 131 oportunidades. Não tem nem graça. Nesta copa os Argentinos marcaram apenas 8 vezes, enquanto brasileiros marcaram 11 gols e alemães 17.

Não é questão de ser latino-americano, de a Argentina também não ser um país de alto grau de desenvolvimento, da Alemanha poder ser tetracampeã caso ganhe. Sem maniqueísmo. Não tem nenhuma questão emocional em jogo, até porque no quesito simpatia os friorentos alemães estão dando outro show de interação e respeito, diante da pequenez de espírito de muitos torcedores argentinos.

A grande questão é que a Alemanha fez uma campanha melhor. Merece ganhar. Se for campeã, daqui a anos, diremos que ela ganhou em uma campanha audaciosa, bonita, com goleadas, coroando uma geração de ouro. Se a Argentina for campeã vamos dizer o que?