Já é tarde demais para ser amado. Já não é mais tempo. Depois de certa idade a vida nos afaga de outro jeito. Para mim essa hora chegou cedo feito alvorada. Como chegaram todas as outras coisas. Minha vida foi sempre um trem que partia antes do horário, poupando os gestos de adeus na plataforma da estação. Não há mais tempo para esses amores que nos chamam, suspirando pelas esquinas. Talvez a estrada. Talvez o silêncio. Talvez um monastério perdido nas montanhas. Mas amor não há mais para nós. Amar não é mais permitido quando se rompe a intimidade das coisas. Antes virar bicho, estrela ou imensidão. Mando sinais, mas não há resposta. Já falei tanto de amor e hoje não o reconheço. São estranhas essas condições. Lá fora um casal sorri do outro lado da rua. Em meu peito só habita a estranheza. Alguém tirou a doçura de viver que eu tinha. Agora é só uma tarde eterna que se estende vagarosa. O calor me irrita. Logo não representarei mais nada, nem pra ela, nem pra mim. Todos cansam. Somos imperfeitos. Estou pronto para o fim.

Não se sabe ao certo quando o ser humano começou a se engraçar por esculturas e achar bonito ter obras de arte espalhadas pelos ambientes domésticos. O fato é que com o advento da modernidade, sempre ela, as próprias esculturas, antes trabalho de uma vida e hoje industrializadas, podem ser adquiridas sob o preço de poucas patacas por qualquer amante da “boa” arte.

Se por um lado isso denota um comportamento cultural saudável e positivo, por outro lado abre espaço para mais uma bizarrice da sociedade atual, que é a ornamentação ostensiva de jardins. Anões, animais, personagens da Disney, garças, caramujos, e uma infinidade de outros seres andam povoando os quintais da nação. Tem gente que acha lindo. Uma espécie de exército chinês de terracota kitsch espalhado entre a varanda e o portão da casa.

Tudo começou com os anões de jardim. Alguém em algum momento da história com o espírito bem fofo colocou na cabeça que anões, gnomos, ou o que quer que o valha, gostavam dos jardins e viviam por lá alegremente. Foi o suficiente para que outras pessoas com o mesmo grau de fofura começassem a espalhar anões pelos pátios das casas, sítios e quintais dos cinco continentes. Em represália, na França, chegaram até mesmo a criar um movimento chamado Frente Nacional pela Libertação dos Anões de Jardim, cujas ações de guerrilha resumiam-se a seqüestrar anões de jardins particulares e devolver as criaturinhas aos bosques e florestas francesas.

Mas anão de jardim se reproduz mais que hare krishna em semáforo e logo os anões foram se diversificando, sendo seguidos, um a um, todos os sete, pela Branca de Neve da história. No traço de Walt Disney, é claro. Porque não é qualquer Branca de Neve, nem qualquer anão. Esgotadas as possibilidades “ananísticas”, começaram a aparecer os animais. Primeiro os silvestres: garças, caramujos, sapos de todos os tipos decorando os canteiros. Depois os domesticados: cães, ovelhas, bois e cavalos. Ninguém me pergunte o que um boi de concreto faz num jardim, mas que tem boi, tem!

Num desbunde escultural, chegaram a colocar em jardins réplicas do Cristo Redentor e da Pietá, anteriormente uma presença garantida em túmulos, já apelando para o lado religioso da coisa. E esses dias, pasmem, em uma dessas minhas viagens ao interior do Brasil, encontro um deus Ganesha a venda na beira da estrada. Sim, o deus elefante do hinduísmo, dançando todo faceiro, em uma clara demonstração da influência que a última novela das oito tem sobre a vida das pessoas.

Olha, não é nada contra os hindus, mas Cristo só tem um. Vai lá ver quantos deuses existem na mitologia hinduísta. São milhares. Já pensou se decidem começar a vender imagens da deusa Kali, Vinshu e Shiva? Olha, tem mais deuses na Índia do que pokemon no Japão. Vai faltar canteirinho. Que Shiva nos proteja das estátuas de jardim. Abaixo essa cafonice!

Nada melhor que esta época do ano para celebrarmos a solidariedade entre as espécies. E é com a chegada do Natal que anunciamos um projeto que pretende revolucionar as relações humanas e sociais, principalmente no tocante a relação homem-mulher. Vem aí a TPM Solidária.

Bem, a Tensão Pré-Menstrual todos, ou quase todos, já conhecemos. Aumento de peso, crises de choro, compulsão para comer, fadiga, dores nas articulações, irritabilidade, cólicas abdominais, enxaquecas e oscilações de humor. A TPM foi diagnosticada pela primeira vez em 1931 pelo pesquisador Robert Frank, em Nova Iorque, e reúne mais de 150 sintomas a ela relacionados, tudo por conta da descarga chucknorriana de estrogênios que os corpitchos de nossas adoráveis mulheres recebem mensalmente. Isso as deixa irritadas e acaba criando uma rede de irritabilidade que contagia a todos que estão por perto. E o pior, estima-se que de 40 a 90 por cento das mulheres padeçam deste mal. É mulher reclamona que não acaba mais.

Cansados de passar uma semana por mês jogados de canto, esquecidos, ignorados, desprezados e, quase sempre, acusados injustamente de não ter sentimentos, bem como de não ter a capacidade de compreender o calvário alheio, nós homens resolvemos lançar a TPM Solidária. É um programa de socialização fácil e de rápida aplicabilidade. Desta maneira você pode ser um parceiro, um verdadeiro companheiro de sua mulher nesta fase tão difícil do mês.

A TPM Solidária é como gravidez psicológica. Você começa entrando na onda, logo vai replicando alguns tipos de comportamento, e quando você menos esperar, já estará de mal com o mundo, distribuindo patadas para todos os lados e fechando a cara até para manequim de loja. Sim, porque se a sua mulher tem o direito de andar com essa vibe toda durante uma semana, você também tem!

E pra que isso? Pra mostrar que ela não está sozinha! Que você a compreende e, principalmente, que você tem o comprometimento de refletir as ações e atitudes dela neste período. Quem sabe não falta só um espelho, não é mesmo? Ou um pouco de educação, como diz André Pinheiro. Porque que se a TPM é um distúrbio, uma doença, uma síndrome ou sei lá qual outro nome queiram dar a este estado comportamental de extrema vilania, então tem mais é que ser tratado. E não descontado em cima de quem nada ou pouco tem a ver com o fato de você ter nascido mulher.

Tudo bem, a essa altura o texto já vai estar parecendo machista, petulante e misógino, mas não é esta a intenção, acreditem. Eu sei que vou levar um puxão de orelha de várias mulheres, inclusive da minha, mas o que eu queria mesmo era só jogar um pouco de luz sobre o assunto, que muitas vezes ainda é tratado como tabu. Porque, convenhamos, vocês ficam muito chatas. Às vezes passam uma semana com a pá virada por causa da TPM e outra semana incomodadas e desconfortáveis. Ou seja, meio mês de chateação. Tudo bem, nós não passamos por o que vocês passam, hormonalmente. Mas vocês também não agüentam o que nós agüentamos nesses dias. Depois ainda reclamam quando o cara troca vocês por outra mulher mais desencanada.

Então, vamos encarar a TPM Solidária como um exercício de altruísmo, como uma oportunidade de nos colocarmos no lugar do outro e ver o mundo com um olhar diferenciado. Homens, chorem mais, sejam mais emotivos, não aceitem ser contrariados. Mulheres, um pouco mais de auto-crítica nessas horas. Conviver não é fácil, mas se vocês só se importam com vocês, arrumem uma caverna para viver e fiquem por lá. Arre, gente mal resolvida! Viva a alegria de viver. Viva as relações maduras e emocionalmente equilibradas. É Natal!

Complete o simpático quase hai cai natalino:

Então é Natal:
Mudam os presentes
(………………..complete aqui com 1 verso…………….)

Ele não desiste. O escritor pernambucano radicado em Itajaí, Hélio Jorge Cordeiro, acaba de lançar o seu segundo romance em terras catarinas. Sei que sou suspeito em falar, uma vez que coube a mim a honra de prefaciar a obra. Porém, apresentar é uma coisa, resenhar é outra. Helinho chega ao seu segundo romance mostrando um amadurecimento de estilo, uma trama mais densa e uma riqueza de detalhes que talvez seja o maior diferencial entre o primogênito e o caçula dessa prole literária.

Ainda com traços de sua carreira de roteirista do glorioso cinema nacional brasileiro, Onde o Diabo Perdeu as Botas poderia, sem muito esforço, ser adaptado ao teatro ou ao cinema. É uma daquelas tramas nas quais o leitor se vê obrigado a imaginar o take já no instante em que os olhos galopam sobre o emaranhado de letras. A história fácil e envolvente toma lugar diante dos olhos, ali, na rua na frente de casa. Não requer muita abstração.

Nesta segunda aventura pela sinuosa e longa estrada da literatura, Cordeiro trabalha melhor as personagens que são, sem dúvida alguma, o ponto alto da obra. O autor capricha na descrição e nas idiossincrasias de cada um deles. A comparação com Dias Gomes, outro comunista dado às letras, é inevitável e, a meu ver, honrosa. É assim na concepção das personagens, seus conflitos, dilemas e fraquezas. E o clima interiorano, com aquele jeitão de “os confins da pátria mãe gentil” também ajuda no tempero da história, que margeia o realismo fantástico, tão caro aos autores latino-americanos e ainda tão pouco explorado pelos escritores brasileiros, muitas vezes americanizados no estilo e no espírito.

A história é leve, flui maravilhosamente bem, e está salpicada de um humor inteligente, outra marca registrada do autor boa-vida. Ou como é que você imaginaria a visita de Belzebu ao sertão do Brasil?

Com Onde o Diabo Perdeu as Botas, Hélio Jorge Cordeiro mostra mais uma vez que é possível fazer uma literatura mais próxima do entretenimento, sem hermetismos, e com a simples ambição de contar uma boa história, como nos velhos tempos, como nas cidadezinhas de interior, como nas rodas de botequim, onde velhinhos recordavam causos memoráveis e onde, vez ou outra, o diabo, de fato, aparecia.

Como são belas as crianças! Está aí um tema sempre presente na história da humanidade. As crianças do meu Brasil. Tem gente que gosta, tem gente que odeia. Há até aqueles que adoram as crianças acima de tudo. Gandhi e Michael Jackson, só pra citar dois exemplos. Gostavam de dormir com infantes na cama. Boas vibrações, diziam eles, uma energia especial, tenra, fora do comum, talvez.

É um fato: todos já foram criança um dia. Alguns ainda não passaram dessa fase – não falo daqueles entre 1 e 12 anos. As crianças eternas! Há inclusive uma empresa estadunidense chamada Perpetual Kids que se especializou em fabricar coisas para aquelas pessoas que guardarão para sempre um moleque dentro do peito. É a mais variada sorte de quinquilharias que se possa imaginar e que estão disponíveis por poucos dólares. Band-aids em forma de bacon, colheres em formas de aviãozinho, canecas, relógios, tapetes…Criança não tem limite. A saudade dessa fase também não.

Já dizia Casimiro de Abreu: “Ah, que saudades que tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida que os anos não trazem mais”. Pois parece que poeta é um bicho saudoso pacas. O Marcos Konder Reis tem também na infância um de seus maiores poemas, onde tristonho, talvez olhando o mar se debruçando ali na praia da Armação pergunta enfim aquilo para o que talvez nem resposta haja: “de que vale a infância, se a perdemos?”

Deixando a poesia de lado, criança é um assunto fácil em qualquer roda de bate papo. Você sempre tem um primo, um irmãozinho, o filho sapeca do vizinho da frente. Algum serzinho a quem tenha uma história a atribuir, uma reclamação a fazer. Criança é presença sempre garantida em festinhas de final de semana, matinês de carnaval, jogo de futebol e circo, em suma, qualquer lugar onde haja brigadeiro ou gelatina em copinho plástico. E mais, criança é um aparelho que vem desprovido de senso de conveniência mas, em compensação, vem com o ponteiro da honestidade afiado. Quer uma prova? Por que as mulheres nunca perguntam para as crianças se estão bonitas, se a blusinha verde escura vestiu bem, se estão gordas? Entenderam, né? Criança diz na lata.

Sim, porque os pequerruchos também têm um lado meio carregado. Dia desses fui buscar meu filhote na escola e, como um bom pai, me posicionei de frente para o crime, postado em pé e em linha direta com a porta da sala de aula. Cinco e meia. Toca a sirene. A porta se abre. Valha-me Nossa Senhora! Só quem já presenciou um soar de sino de escola sabe do que eu falo. É a visão mais próxima que tenho da Barbárie da qual escrevem pensadores socialistas. O ser em seu estado primitivo. Pra não falar de inferno, porque o diabo não merece.

É criança correndo de um lado para o outro, sem chegar a lugar nenhum e sem explicação. Um batendo no outro. Bolas, roupas e mochilas voando. Tropeçares mútuos em pés alternados. Um puxão de cabelo aqui, um tabefe acolá. Gritos, gritos. Chamam por nomes, contam histórias, apenas berram. É a ânsia da vida nascendo diariamente através da criança. E como a vida faz barulho. Talvez seja o excesso. Tudo o que é demais causa espanto. No fundo parece um campo de batalha. Uma guerra particular em miniatura. Olho para os lados atônitos. Meu filho não é diferente. Vem pulando aos brados. Tenho a impressão de que é a bolsa de valores de Liliput, ali se descortinando sob meus olhos incrédulos.

Como são infernais as crianças!

Ela ainda sonha com um príncipe encantado
Que está tão longe, longe, longe
Ele ainda no escritório sempre muito ocupado
Acha que é triste, triste, triste

Ela ainda pensa mesmo que calada
Que a vida é bela, bela, bela
E pelos quilômetros da auto-estrada
Ele pensa nela, nela, nela

E se os dois um dia estivessem lado a lado
E se fosse certo, certo, certo
E se os dois desafiassem o que há de errado
E ficassem perto, perto, perto

Ela então um dia enfim saberia
O que é amar
E ele findaria com sua alegria
Todo esse penar

não gosto das coisas certas certas
gosto da imperfeição delicada
da beleza estranha
de tua distância
do teu olhar pousado em silêncio
sobre meu olhar desesperado

meu deserto
eremita vago
pelas tuas sombras
tua vocação à ausência
teu sentir calado

cada um tem sua vidinha
eu a dela
e ela a minha

Para Priscilla

em sonhos brandos
subo penhascos
me disfarço em abismos
balões interplanetários
e alguma madrugada

[procuro no coração meu Oriente]

eu que sou poeta
eu que sou povo
e sou homem
e multidão
e gente

levanto o rosto para a luz
você – sol de viagem

mundo me faço
invento desertos
oceanos e cordilheiras
porque te amar é mais do que tudo isso

ficaremos você e eu
no fim ficará a paisagem
ficará o planeta rodando
em meu peito

relâmpago menino
meu amor
tão moço sentimento.